As dores e as delícias do primeiro encontro – Parte 15

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O despertador tocou impiedosamente às 7 da manhã. A segunda feira era cruel com o fim das férias e a volta a rotina. O problema maior é que seus olhos mal se abriam por conta das lágrimas da noite anterior. Além disso, não conseguiu pegar no sono antes das duas da manhã. Ana tateou o rosto levemente e concluiu que não iria mais chorar antes de dormir tão cedo!

Pra conferir o estrago, foi direto pro espelho do banheiro:

– É, hoje seria um belo dia para trabalhar de óculos escuros. Ou melhor, hoje seria um excelente dia para estar de férias. – resmungou.

Mas como a vida não é assim tão simples,  Ana teria que encarar o trabalho, com olheiras, sem olheiras, com inchaço, sem inchaço.

Tomou um banho rápido, vestiu a primeira roupa que viu e decidiu que tomaria o café na padaria mesmo. Seu ânimo para preparar o café em casa hoje era proporcional a sua vontade de correr uma maratona debaixo de chuva. Pegou seu óculos de sol favorito, aquele que tapava boa parte do seu rosto, e foi encarar a vida. Pelo menos na rua ela podia mascarar a sua real situação.

No celular, 3 mensagens de Guilherme. O que ela deveria fazer? Não tomar decisões de cabeça quente era a primeira orientação. Mas ignorar Guilherme sem ouvir o lado dele também não era certo. Resolveu abrir as mensagens.

23:15

Estou mandando essa mensagem só pra te dar boa noite, como todos os dias! Você me fez voltar a gostar de mensagens Ana. Sempre que o meu celular apita, corro pra ver se é alguma mensagem sua. Bom… é só isso! Beijo.

Ela esboçou um sorriso.

06:45

Bom dia Ana! Confesso que torci pro dia amanhecer chovendo hoje, assim eu poderia te ver de novo. Já to com saudades de você, como isso é possível?

Ai meu Deus, ele é realmente fofo.

06:50

Eu to sendo muito meloso, não tô? Mal me reconheço, hahahah Você já acordou?

Será possível que ele conseguia atuar tão bem assim? André só podia estar enganado…

Ela pensou e pensou, mas resolveu responder. Nada muito elaborado, só pra mostrar que estava viva.

08:15

Oi. Ontem apaguei e só vi suas mensagens agora. Acordei e saí correndo de casa, não cheguei no trabalho ainda, estou no centro. Será que a gente pode se ver hoje?

Antes de enviar, releu a mensagem e se achou um pouco ríspida. Era injusto tratá-lo mal por conta de uma fofoca que ela nem tinha confirmado… Resolveu mudar o texto.

08:19

Oi Gui, bom dia! Ontem dormi cedo e só vi suas mensagens agora. =)

Acordei as 7 e saí correndo de casa. Não cheguei no trabalho ainda, estou no centro. Não está sendo meloso, porque fico feliz que sinta saudades de mim. Será que a gente pode se ver hoje? Beijo.

Pronto, assim estava melhor. Nada como uma carinha feliz e um bom dia pra mudar o tom da conversa. Agora era só aguardar a resposta dele.

Ana passou na gráfica, conferiu o andamento de alguns projetos. Por sorte, tudo ia bem. A diagramação que sempre dá problema, dessa vez estava perfeita e o prazo de entrega foi antecipado! A chefe ficaria feliz.

Como a gráfica ficava a poucas quadras da empresa, Ana resolveu tomar seu café no caminho. Verificou o bolso do celular e Guilherme ainda não tinha respondido.

Ela queria compartilhar o e-mail de André com alguém. Pensou em ligar para Lívia, mas ela detestava o André – com razão – e a mandaria ignorar tudo, como sempre. Tinha algum tempo que não falava com Júlia e talvez fosse o momento de colocar a amiga a par da história. Mas não agora porque precisava trabalhar, talvez hoje a noite.

Terminou o café apressadamente e saiu comendo o pão na chapa. Era impossível resistir, café de padaria era a melhor coisa do mundo! Só não devia ser melhor que o café na casa do Guilherme, com aquelas delícias da Dona Sônia… Definitivamente ela sabe como cozinhar! E tem gente que ainda fala mal das sogras. Esse problema ela aparentemente não teria!

Assim que chegou à sua mesa no trabalho foi recepcionada pela chefe.

-Ana, minha querida! Você não sabe quanto eu fico feliz em te ver… Suas férias parecem durar uma eternidade!

– Oi Helena, bom dia! Você acha? Olha que pra mim passou voando… – respondeu sorrindo.

– Aconteceu alguma coisa, meu bem? Você tá com o rostinho um pouco inchado…

Um pouco é bondade sua, chefe! – ela pensou.

– Pois é, acho que foi alguma coisa que comi ontem a noite… Senti que meu rosto estava pinicando, mas não percebi o inchaço na hora. – e aquela era a primeira desculpa que veio a sua mente.

– Poxa, quer um antialérgico?

Parece que a mentira colou, ou Helena só estava tentando ser simpática.

– Não, é melhor esperar. Antialérgico me deixa muito sonolenta, daqui a pouco passa!

– Tudo bem, qualquer coisa você me avisa, tá bem? Teremos uma reunião hoje à tarde, cliente novo! Quero você comigo, suas idéias são sempre boas.

– Ah, tudo bem… Mas eu não fiquei sabendo da reunião, não tive tempo de me preparar…

– A Célia não te mandou o e-mail? Tá vendo porque você faz falta? Sem você todo mundo fica perdido! Pedi que ela enviasse na sexta. Bom, não faz mal, você sempre se sai bem no improviso! Anota ai, será às 16h.

Ana gostava muito de Helena e parecia que o sentimento era recíproco. Ela estava na empresa a pouco mais de um ano, mas a chefe a tratava com intimidade e carinho, como se já se conhecessem há bastante tempo. E aquele era o seu primeiro emprego formal.

Respondeu alguns e-mails, verificou pedidos de orçamento e quando viu o celular novamente, Guilherme havia respondido a mensagem.

10:30

– Ei! Podemos sim. Que horas você sai pra almoçar? Se quiser, podemos ir juntos… Hoje a noite vai ficar um pouco mais complicado porque vou fazer hora extra. Mas posso passar na sua casa mais tarde, se preferir. Ai pelas 20:30.

10:42

Prefiro no almoço. Saio 12h e tenho que estar de volta às 14h. Realmente preciso falar com você.

Ana odiava receber esse “preciso falar com você”, mas enviar a mensagem com essa frase devia causar o impacto necessário.

E causou mesmo, pois rapidamente recebeu a resposta.

10:44

Esse “preciso falar com você” me assusta. Não que eu tenha culpa no cartório, mas… aconteceu alguma coisa? Tava tudo bem até ontem.

10:46

Bom, mais ou menos. Pessoalmente a gente se fala.

10:47

Pessoalmente a gente se fala é ainda pior Ana, você quer me matar com esse suspense todo?

10:48

Talvez não seja nada, mas quero ouvir de você.

10:49

Tô ficando nervoso. Adianta um pouco do assunto…

11:00

Preciso terminar umas coisas no trabalho, mas tem a ver com a Marcela.

11:02

Marcela? Não temos mais nada, eu já disse. No almoço nos falamos melhor então, até.

– Eita, parece que ele ficou um pouco ressentido comigo… – Ana pensou. – Mas tenho o direito de duvidar, não tenho? O que eu não posso é acusar sem provas… e parece que foi isso que eu fiz. Droga!

A última hora até o almoço passou lentamente. Ana recebeu uma ligação de Guilherme meio dia em ponto.

– Oi. Onde você quer comer?

– Oi. – respondeu baixinho – pode ser aqui perto da empresa? Tem uma galeria que serve comida italiana.

-Tudo bem, chego em 15 minutos, te vejo lá.

E desligou, sem beijo, sem tchau. Agora era certeza, ele estava realmente chateado.

– Oi Ana. Ele acenou enquanto virava a esquina da galeria.

– Olá. – Ela sorriu, delicadamente.

Com um selinho, ele a cumprimentou e se afastou.

– Você quer, por favor, me dizer o que você “supostamente” descobriu sobre mim e a Marcela?

– Então, – ela não sabia como começar, seria ridículo dizer que recebeu um e-mail revelador, certo? – eu fiquei sabendo que a Marcela estava na sua casa naquele dia que fomos ao teatro.

– Sim, ela estava, mas como você soube disso? E por ela estar na minha casa você  logo deduziu que eu estava lá ficando com ela e depois fui encontrar com você? Você realmente acha que eu quero fazer algo desse tipo?

– Não, eu não acho. Mas a pessoa que me disse me deixou intrigada.

– Bom, eu não sei quem te disse, mas a Marcela estava lá em casa porque a minha mãe é madrinha dela e ela e a Luísa são amigas. Ela foi lá procurando pela Lu e pra ver a minha mãe… A casa é dos meus pais, Ana. E antes da Marcela ser minha namorada, ela é afilhada da minha mãe. E eu não a odeio Ana, ela não tem motivos para não ir lá de vez em quando por elas.

Ana estava muda e seu rosto estava queimando de vergonha.

– Mas não posso deixar de te perguntar, quem te disse?

– O André, não sei se você conhece ele e…

– Não pessoalmente, mas sei quem é. Poxa Ana, sério? Eu acho que merecia um pouco mais de credibilidade.

– Você tem razão, me desculpe… – seu rosto queimava de vergonha de si mesma.

– Eu desculpo, mas porque em vez de imaginar mil coisas você não perguntou primeiro pra mim?

– Eu sei, sou uma idiota. – disse, sentindo seus olhos lacrimejarem. Toda vez que ficava com muita vergonha, lágrimas afloravam em seus olhos.

– Não, você não é idiota. Mas por favor, se eu não te dei motivos pra desconfiar de mim, não desconfie. Confiança é uma das coisas mais importantes pra mim. E espero que seja pra você também. – piscou.

– Você está certo. – uma lágrima teimosa insistiu em cair.

– Ei, deixa disso! Essas coisas acontecem. Foi apenas um mal entendido. Eu realmente poderia ter te falado da Marcela, mas não lembrei disso quando te vi naquele dia. Com você na minha frente eu não ia ficar pensando em falar sobre a Marcela, né? – sorriu.

– Não vai acontecer de novo! E mesmo se acontecer, eu prometo que falo com você antes!

– Combinado! Agora vamos almoçar? Ao contrário de você, só tenho 1h de almoço, mas avisei que me atrasaria um pouquinho! Mas não pode ser uma hora inteira. – ele riu.

– Ah, você é tão explorado! Vamos, você vai amar o nhoque a bolonhesa.

– Não é a toa que dizem que esse negócio de namoro engorda né?

Ela corou e sorriu. Era a primeira vez que ele falava namoro e ela não poderia estar mais feliz.

É, não seria dessa vez que André ou qualquer coisa ia conseguir arruinar o relacionamento de Ana. Até que evidências reais apareçam, ela não tinha motivos para desconfiar de Guilherme.

(CONTINUA)

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