As dores e as delícias do primeiro encontro – Parte 9

Leia aqui a Parte 1, Parte 2, Parte 3Parte 4Parte 5Parte 6Parte 7 e Parte 8.

Ana ouviu perfeitamente o chamado, mas preferiu fingir que não. Deu mais 3 ou 4 passos, até que foi alcançada por Guilherme.

– Ana? Você tá indo embora? – perguntou assustado.

– Lembrei que esqueci o fogão ligado em casa. – E essa foi a mentira mais ridícula que ela havia dito em tempos.

– Hã? Fogão? Ai Ana, fala a verdade… O que tá acontecendo?

– Não é nada… Bom, na verdade, é sim. Eu não deveria ter vindo nesse churrasco, só me dei conta disso agora. Mas não faz mal, to indo embora.

– Não vai embora, fica! Acabei de chegar também.

– Ué, mas você não ia jogar bola com os meninos cedo e depois vinha direto pra cá?- Ana não queria começar um interrogatório, mas era impossível resistir às vezes. A vontade de perguntar costumava ser mais forte que ela.

– Sim, eu ia fazer isso! Mas desanimei… Já joguei bola com eles ontem. Eu tinha combinado de jogar de novo, mas o sono bateu forte. O despertador tocou e eu continuei dormindo…

– Sei…

– E você? Nem me falou que vinha no churrasco! O Gustavão te chamou?

– Na verdade, até chegar em casa ontem, eu não sabia mesmo que vinha. Foi a Livinha que me convidou.

– Eu teria te chamado também, se soubesse que ele tinha chamado várias meninas. Pensei que seria um churrasco só de cerveja, cheio de homens. Não queria que você ficasse sem graça…

– Não faz mal.

– Você parece chateada… Tá brava comigo?

Ana deu aquela reviradinha de olhos. Eu não pareço, eu estou. E eu estou MUITO!

– Não to brava, é que…

– O que?

– Não pude deixar de ver você conversando com a Marcela na hora que eu cheguei.

– Ah, então é isso?

– Isso o que?

– Por isso que você ficou brava e ia embora? – Ele deu um risinho.

– ÓBVIO QUE NÃO! – Ana acabou falando um pouco mais alto do que esperava.

– Tá bem, já entendi. – Ele riu mais uma vez. – Não tem nada, Ana. É que a Marcela tá organizando as coisas pra se mudar e achou uma mala com roupas minhas por lá. Ela queria devolver.

– Ela vai se mudar pra onde? –  Ana só ouviu a parte do “se mudar” e já estava torcendo para que fosse pra outra cidade. Sendo otimista, uma mudança de Estado seria o ideal.

– Ah, não perguntei direito. Mas acho que ela vai passar um tempo na casa da vó dela, no interior. Desde que o vô faleceu, a vó vem se sentindo muito sozinha e tal… Já faz tempo isso, foi na época que estávamos juntos.

Ana se sentiu mal imediatamente. Estava torcendo tanto pra ela ir embora que nem se importou com o motivo.  Agora estava se sentindo uma louca neurótica.

– Poxa, que situação… Espero que a vó dela fique bem.

– Ah, ela vai ficar. Mas vamos ali pro churrasco, o pessoal já tá olhando pra gente faz muito tempo.

Ana levantou os olhos e imediatamente viu algumas pessoas tentando disfarçar que estavam encarando. Ela riu e resolveu deixar a birrinha pra trás. Antes que ela pudesse dar um passo, ouviu Guilherme dizer pertinho do seu ouvido:

– Posso?

Olhou pra baixo e viu uma mão tímida que pairava perto da sua mão. Seu desejo era dar pulinhos de felicidade, mas se conteve e respondeu em meio a um sorriso:

– Claro.

Ele entrelaçou os dedos nos dedos dela e seguiram pra área da piscina.

Ana pode ouvir umas piadinhas vindas lá de longe, mas ela estava tão feliz que aquilo não importava nada.

Depois de uns 15 minutos de conversa que passaram num piscar, Ana percebeu que Gustavão estava se aproximando.

– Quando é que o casal vai se juntar aos bons?

Aquela era a primeira vez que alguém se referia aos dois como casal. Era brega, mas ela estava adorando! – Pode ser agora! – Respondeu Ana, sorrindo.

– Não só pode como deve! Aliás, Ana, tem anos que eu não vejo você! Que coincidência te encontrar de novo depois de tanto tempo.

– Pois é! Perdemos contato depois do ensino médio.

– Cara, ela é muito educada mesmo… Pode falar Ana, você não era uma das minhas maiores fãs!

– Ué Ana, como assim? É verdade isso ai? – Perguntou Guilherme, rindo.

– Ah, sabe como é né, éramos adolescentes…

– Ana, não tenta disfarçar. Eu era otário e sabia muito bem o que eu tava fazendo, eu merecia a sua repulsa. – E deu uma gargalhada.

– Bom, já que você tá dizendo, era meio babaca sim! E meio idiota também…

Guilherme gargalhou. – Agora entendi aquela cara de quem comeu e não gostou quando ouviu o nome do Gustavo. Achei que era o lanche que tava te fazendo mal…

Ana estava sentindo a cara queimar de tanta vergonha. – Não exagera né? Não fiz cara nenhuma. Bom, talvez eu tenha feito uma carinha, mas nada tão óbvio. – Ana não conseguia se conter. Quando ouvia uma coisa desagradável seu rosto se contorcia imediatamente. Era uma reação automática.

– Águas passadas Ana, eu juro! Bom, espero poder renovar a minha imagem com você, já que agora você tá namorando meu brother…

Era oficial, Ana queria um buraco pra enfiar a cara. E ela queria já! Guilherme não disse nada, mas Ana viu que suas bochechas coraram imediatamente.

– Opa, me precipitei né? – Disse Gustavo.

– Um pouco – Disseram em coro.  Ao notarem a coincidência, todos riram.

Lívia estava num cantinho, ao lado de Beto, acenando pra amiga. Ana acenou de volta porque sabia que aquele gesto era um pedido ansioso da amiga: “Posso ir aí?” Ela podia ler dentro dos olhos de Livinha.

Ana fez que sim com a cabeça e mais do que depressa, Lívia puxou Beto pelo braço e veio em direção da amiga. Nesse meio tempo, Gustavo se afastou e foi dar atenção aos outros convidados.

Para acabar com aquele silêncio constrangedor, Ana queria que a amiga viesse voando. Ela mal conseguia ficar ao lado de Gui, depois do que Gustavo tinha falado.

Pra sorte dela, Lívia se materializou na sua frente antes mesmo da sua próxima respiração.

– Oi amiga! Esse deve ser o Guilherme né?

Guilherme logo interveio – Tô tão conhecido assim? O que você andou falando de mim, Ana?

Meu Deus, essa sessão vergonha nunca vai ter fim. – Amiga!!! Não falei nada de mais, imagina… Só comentei que você estaria aqui no churrasco.
– Eu tava doida pra te conhecer! – Disse Lívia, toda animada.

– Então muito prazer! – Antes que Guilherme pudesse se aproximar para cumprimentá-la, Livinha já estava abraçando e dando 3 beijinhos.

– É o momento das apresentações então? Eu sou o Roberto. Mas me chamem de Beto, por favor. – E abriu um sorriso tão radiante que Ana se impressionou. Aqueles dentes eram os mais brancos que ela já tinha visto. Livinha tinha razão, ele era maravilhoso! Assim, de pertinho, até lembrava o Paulo Zulu.

– Oi Beto! Famoso Beto! – E piscou pra amiga. – É um prazer finalmente conhecer você!

– Famoso? Lívia, Lívia… – Disse encabulado.

E aquela era uma das poucas vezes que Lívia tinha ficado com a cara vermelha igual a um pimentão.

– Tá bom, tá bom! Apresentações já feitas, vamos parar com esse constrangimento mútuo!

– Perai, Beto? Você é o Beto do Basquete Dom Pedro? – questionou Gui.

– Ué cara, você jogava lá também? Não to lembrando de você…

– Não, eu só ia assistir! Vocês sabiam que ele já marcou 35 pontos num jogo?

– Que isso hein Beto, profissa! – completou Ana.

Lívia sabia quantos pontos Beto tinha feito em todos os jogos dos últimos anos. Ela era uma perfeita stalker quando o assunto era o Beto, mas ficou bem quietinha pra não dar bandeira.

– Imagina galera! Eu apenas treino, to longe de ser profissional. Mas curto demais jogar pelo Dom Pedro nos campeonatos amadores.

– Ele tá se fazendo, já passou de amador faz tempo! Recebeu até proposta, conta pra eles! – Lívia não podia perder a chance de rasgar uma sedinha.

– É mesmo cara? Conta isso melhor pra gente! – Perguntou Gui, com interesse.

– Então, não é nada muito certo. O técnico me chamou pra substituir um jogador do Atlético Sul. Foi uma lesão inesperada no armador e surgiu uma vaga no time. Mas como eu já to velho, não to criando muita expectativa… Vamos ver!

– Beto, é uma ótima oportunidade! Vou torcer muito por você! – Disse Ana, com entusiasmo.

– Sim, vai ser bacana! Mesmo que eu não possa jogar por muito tempo, vai ser um prazer. – Finalizou Beto.

Ana olhou ao redor e viu que todo mundo estava se divertindo. Procurou Marcela com os olhos, mas não encontrou… Talvez ela só tivesse ido lá para dar um recado ao Guilherme. Ou talvez não. Mas ela percebeu que não tinha motivos pra ficar desconfiada. Guilherme tava ali, ao lado dela, e não escondia de ninguém que eles estavam juntos. Será que enfim ela poderia relaxar e só aproveitar o momento?

Um período depois, foi verificar as notificações do celular que estava apitando há um bom tempo e viu cinco ligações perdidas e uma mensagem.

“Ana, preciso conversar com você urgente. Assim que puder me retorne. Beijo, André”

(Pra quem não se lembra, André apareceu no capítulo 6. É o ex-ficante de Ana que a enrolou por quase um ano.)

O que será que André queria tanto falar com Ana?

 

(CONTINUA)

 

 

 

 

 

 

 

 

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