As dores e as delícias do primeiro encontro – Parte 7

Leia aqui a Parte 1, Parte 2, Parte 3Parte 4Parte 5 e Parte 6

Ao saírem do teatro, Ana tentou engatar um papo qualquer com Guilherme, comentando o quanto havia gostado da peça e da atuação do elenco.

– É, eu também. – respondeu, meio apático. Ele sacou o celular do bolso e ligou pra Luísa, caindo diretamente na caixa-postal. Logo depois, viu que a prima havia mandando uma mensagem dizendo que tinha saído um pouco antes da última cena porque recebeu um telefonema urgente do noivo. – Bom, a Luísa já foi pra casa. Você quer comer alguma coisa ou quer ir embora?
– Queria comer sim… mas Guilherme, tá tudo bem? Você parece um pouco tenso.

– Impressão sua, só to um pouco cansado. Joguei futebol com os meninos mais cedo e dormi pouco na noite passada.

-Ahhhh tá… – Ana não engoliu aquela desculpa. Ele estava ótimo até perceber que a ex também estava ali. Mas ela não queria confrontá-lo, não hoje.

-Então, onde você quer ir?

– Um lanche rápido já tá bom pra mim. Tem um Subway quase na esquina da minha casa. Vamos lá?

– Por mim pode ser também.

Entraram no carro e seguiram caminho, trocando poucas palavras no percurso. Ana estava se remoendo, queria perguntar logo de uma vez e pular fora desse rolo enquanto ainda estava no início, caso a resposta dele não fosse convincente. Mas ao mesmo tempo, ela não estava pronta para ouvir nada de ruim, então preferiu não tocar no assunto.

Assim que chegaram lá, Gui parecia ter voltado ao seu estado normal, de antes da peça. Estava mais falante e também sorria mais. Pediram o mesmo sanduíche, de frango com bacon, cheio de molho de cebola agridoce e mostarda com mel. Era engraçado como tinham pequenas coisas em comum. Em alguns momentos, eles falavam as mesmas coisas ao mesmo tempo, como se um soubesse o que o outro estava pensando.

Enquanto estavam lanchando, Ana não conseguia parar de observá-lo. E parecia recíproco, porque os olhos deles se encontravam de tempo em tempo combinados a sorrisinhos tímidos. Eles formavam um casal fofo. Isso ninguém podia negar.

– Então Ana, suas férias estão acabando, né?

– Sim, acabam nesse final de semana. Segunda feira volto ao batente.

-Ah, que bom! Sinto sua falta quando visito a empresa!

– Jura? Obrigada! Confesso que eu gostaria de ficar mais alguns dias em casa, mas o dever me chama. – Falou, corando imediatamente. Ela amava quando ele dava esses indícios que gostava dela.

Ana trabalha como revisora de texto numa editora. Acabou conhecendo Guilherme num dia em que teve que esperar além do expediente pelo responsável que arrumaria seu computador de trabalho. O técnico que normalmente prestava serviço para a editora, estava de licença e Guilherme era o seu substituto. Como ele nunca tinha ido até lá, se perdeu pelo caminho e acabou chegando depois do horário marcado. Novato e com medo de receber uma bronca dos superiores,  compensou o atraso promovendo um upgrade de bônus no computador da Ana. Ela, muito satisfeita com seu trabalho e também levemente atraída pelo seu sorriso, fez questão de elogiar o trabalho dele ao chefe e ele acabou sendo efetivado na firma de manutenção de computadores. Com o tempo, ele voltou à editora mais algumas vezes, para arrumar outros computadores e assim eles começaram a se falar, até que Guilherme convidou Ana para o primeiro encontro e deu no que deu!

Assim que terminaram o lanche, voltaram para o carro, apesar do prédio de Ana ser logo ali na esquina. Ela não queria que aquela noite acabasse tão cedo e pelo visto, nem ele.
Embalados por “Stay With Me” que tocava no rádio do carro, ele a surpreendeu novamente com um beijo, mas dessa vez um beijo mais doce do que o do começo da noite. Sabe aquele beijo romântico de quem não tem pressa nenhuma de terminar? Esse mesmo. A vontade dela era de se afundar no banco daquele carro e passar a noite em claro beijando Guilherme e observando as estrelas.

Ana despertou dos seus pensamentos românticos quando o seu celular começou a tocar bem alto. Era o aviso da pílula que ela ainda não havia tomado.  Não podia existir momento mais oportuno…

– Caramba, já passa das duas – diz ele, conferindo no relógio de pulso.

– Por mim tudo bem, não tenho planos pra amanhã mesmo… – diz Ana, sugestivamente, esperando que ele a convide pra sair de novo.

-Ah Ana! Eu combinei com os meninos de jogar uma bola amanhã cedo, as 9, depois vamos emendar um churrasco a tarde na casa do Gustavão, ele voltou do intercâmbio em Londres essa semana e a gente ainda não se viu.

– Sei… conheço ele, deve estar cheio de histórias pra contar.

– Conhece? De onde? Que mundo pequeno

– Estudamos juntos no ensino médio…

– Cara maneiro né?

– Ô, demais.
Guilherme não detectava ironias facilmente, então Ana não teve a oportunidade de dizer que ela achava o Gustavão um baita de um playboy otário… Mas muito tempo se passou, talvez ele tenha amadurecido. Vamos pensar positivo. – mentalizou Ana.

– Acho melhor eu ir então…

– Você tem planos pro domingo? – Perguntou ele.

– Domingo… – E se lembrou que tinha se comprometido de almoçar na casa dos pais. – Sim, já tenho planos.

– Ah – ele murchou – a gente combina alguma coisa outro dia então, pode ser?

– Sim, a gente se fala! – Deu-lhe um selinho de despedida e fechou a porta do carro.

Enquanto subia as escadas da portaria do prédio, teve um estalo das lembranças do ensino médio… Gustavão era nada mais, nada menos que vizinho de Marcela.

 Às vezes Ana detestava as coincidências do mundo e essa era uma coincidência que ela dispensaria facilmente.

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