As dores e as delícias do primeiro encontro – Parte 21

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Resumão para refrescar a memória, porque eu sei que o hiato foi grande!

Ana está finalmente namorando com Guilherme, as coisas ainda estão no início, mas ela está feliz no novo relacionamento. Tudo parecia fluir muito bem, até que o destino dá um jeitinho de bagunçar e traz Arthur de volta a vida de Ana. Pra quem não se lembra, Arthur é um velho amigo dos tempos de adolescência. Assim, lá no fundo, ele não era só amigo. Ana tinha uma quedinha por ele. Mas os anos se passaram, certo? É, mais ou menos… quanto se trata de primeiro amor e questões do coração, nós nunca temos as respostas certas. 

Vou fingir que não ouvi, quem sabe assim ele desiste, vira as costas e vai embora. Ou talvez eu esteja apenas sonhando e ele vai desaparecer e….

-Ana? – ele repetiu.

Droga, não funcionou. Definitivamente não era um sonho. – Oi! Arthur? – fingiu surpresa.

– Olá! Eu estava passando por aqui e te vi… – ele olhou pra baixo, mordendo a boca num sorriso.

– Passando aqui? Mas você nem mora por essas bandas – completou, intrigada, mordendo as bochechas pra não sorrir.

– Tá bem vai, eu não tava passando aqui de bobeira, eu estava no carro, vi você sentada na praça e resolvi vir dar um alô. Meu carro está ali, eu estou indo visitar um cliente. – ele confessou.

– Ah sim! Agora as coisas fazem mais sentido – Ana deu um sorriso, enquanto sentia o rosto corar.
Ela não podia deixar ele ali em pé ao lado dela, podia? Antes que pudesse responder a essa pergunta, disparou: – E ai, já almoçou? Senta ai! Acabei de pedir.

A intimidade fluía naturalmente. Era como se ela tivesse 16 outra vez.

– Poxa Ana, almocei agora mesmo, mas vou aceitar o convite para te fazer companhia. Vou pedir um expresso. – Enquanto puxava a cadeira, fez sinal para o garçom, que veio logo em seguida.
– Gostaria de pedir um expresso, por favor! – dirigiu-se ao homem que anotava os pedidos. – O garçom concordou com a cabeça e trouxe o café, 1 minuto depois.

– O atendimento aqui é bom hein? – Ele sorriu, enquanto olhava para Ana.
– É sim, sempre venho aqui! Qualquer dia você precisa experimentar a comida – disse, sem pensar.

– Isso é um convite? – ele não perdia as oportunidades.
Ela corou na mesma hora. Droga. Realmente tinha parecido como um convite. Como sairia dessa?

– Pode ser que sim. – respondeu meio sem jeito. Ela não conseguiu pensar numa resposta negativa.

– Arthur – ela continuou – gostaria de agradecer novamente pelo presente. Não precisava se incomodar, mesmo! Mas gostei muito.

– Não é incômodo, Ana. Eu apenas passei em frente à floricultura e me lembrei de você. – ele parecia bastante sincero.

– Tudo bem então, mas é que… bom, vou falar. Achei estranho receber um presente de você, assim, sem nenhuma ocasião especial… – ela não queria ser indelicada, mas precisava deixar claro o seu ponto.

– Estranho? Desculpe, foi só um agrado para uma velha amiga que não vejo há muito tempo. – era nítida a decepção em seu rosto, apenas da tentativa em disfarçar.

– Não é isso! Acho que me expressei mal. Só achei, não sei… meio…. – as palavras fugiam de seus pensamentos.

– Com segundas intenções? – ele completou objetivamente.
– Talvez? – respondeu, titubeando.

O sorriso dele iluminou o rosto. Sim, ele tinha segundas e talvez terceiras intenções. Mas antes que pudesse dizer algo, o pedido tinha chegado.

– Aqui está, Ana. Desculpe a demora! – disse o atendente.

– Imagina, não demorou (apenas o suficiente para ser atingida por uma declaração bombástica), muito obrigada, Luís. – Ana se dirigiu a ele, com um sorriso no rosto.

Você sabe que é um cliente freqüente quando os garçons já te chamam pelo nome. Ana sabia e adorava a sensação de se sentir em casa, mesmo estando fora de casa. O restaurante era um lugar que ela se sentia segura, mas as palavras de Arthur tinham lhe tirado essa sensação de segurança temporariamente. Ela não conseguia disfarçar a ansiedade em seus olhos. Soltou um sorriso nervoso para Arthur, que entendeu como um sinal para continuar.

– Então Ana, talvez eu tenha sim, segundas intenções. Mas eu entendo se você quiser que eu não tenha. Nosso tempo já passou? – ele perguntou, sustentando o olhar nos olhos dela.

Essa objetividade dele era boa em alguns momentos, mas nesse em especial, era dureza.

– Então – era difícil não gaguejar. – Arthur…

– Oi – deu um risinho.

– É que eu estou namorando agora e…. –essa incerteza nas respostas não transmitia muita firmeza.

– Entendi. Eu cheguei atrasado então. Tudo bem, erro meu. – as palavras eram duras.

– Ai Arthur, não fala desse jeito.

– Não foi minha intenção que as coisas saíssem dessa forma… Mas os nossos caminhos se afastaram de um jeito que eu não tive como controlar. – ele estava realmente se justificando.

– Eu sei. Não vou negar que nunca senti nada, porque eu senti, por muito tempo.

– Eu também. E sinto, não da mesma forma, mas sinto. – dava pra ver verdade em cada expressão do seu rosto.

– Mas agora eu já estou com o Guilherme, gosto dele. É recente, não temos a mesma intimidade, mas estou construindo essa relação. – completou, tentando mostrar consistência.

– Eu sei, Ana. Vou respeitar o seu espaço. Mas gostaria de manter a amizade com você, é possível? – seu olhar era suplicante.

– Sim, é claro que é possível, mas você entende, né? Amigos mesmo… – falar isso era difícil, mas necessário naquele momento.

– Vou tentar. – ele deu um risinho. – No mais, como vão as coisas? Folga hoje?

– Problemas no encanamento em frente ao prédio da empresa, acredite se puder! Mal voltei de férias e ganhei “folga”. Tô trabalhando em casa hoje. – respondeu, entre uma garfada e outra.

– Sortuda! Ou talvez não? Trabalhar em casa não é tão simples quanto a gente pensa, né?

– Mais ou menos isso. – Ana completou.

– Olha só como são as coisas, ganhei meu café com você. Não é bem como eu tinha planejado, preciso confessar, mas é algo, né?

– Ai Arthur… – ela estava sem resposta.

– Eu não to sendo implicante! Só brinquei! Juro! – ele levantou as mãos para mostrar os dedos não cruzados.

– Eu sei, mas fico sem jeito, mesmo assim.

– Mas não precisa ficar! Sou só eu. O Arthur de sempre.

Mal sabia ele que o problema era exatamente esse. Ficar assim, olhando pra ele, causava um calorzinho lá no fundo do coração. Aquele lance de primeiro amor, existia um encantamento que ela não conseguia resistir…

– Certo, vou me lembrar disso – disse, entre um meio sorriso.

Ana já tinha terminado de comer, mas não estava exatamente com vontade de voltar pra casa. Trabalhar depois do almoço é sempre uma coisa complicada. Ainda mais com o sofá tão perto, o sono vem, é impossível evitar um cochilo.

– Então, posso pedir a conta? – ele perguntou.

– Acho que vou pedir um suco, ai podemos conversar mais um pouco – respondeu.

– Ótimo! – Ele parecia realmente animado.

Ana pediu um suco de abacaxi com laranja e ele mais um café.

– Dois expressos em menos de uma hora? Acho que temos um viciado em cafeína por aqui… – sugeriu.

– Mais ou menos isso. Eu sempre tomei café pra estudar, não sei de você lembra, provavelmente não, mas eu bebia café, tomava guaraná e outras maluquices desse tipo.

-No pré-vestibular né? Lembro sim. – anos tinham se passado, mas essas pequenas memórias eram nítidas.

– Ana, se tem uma coisa horrível nos Estados Unidos, essa coisa é o café. Nunca me acostumei com aqueles copos enormes de café aguado. Prefiro mil vezes um expresso. Por mais que eles tenham variedade para dar e vender, não se compara ao café daqui. Aqui tem café bom e barato em qualquer esquina!

– Mas aqueles copos são tão legais nos filmes – disse, sonhadora.

– Nos filmes, sim. Na realidade parece que foram passados numa meia velha.

– Que horror!!! – riu alto. – Você destruiu os meus sonhos agora!

– Lembra que a gente falava de tomar café na Starbucks, só pra colocarem nossos nomes no copo?

– Lembro!!! Lembra também que a gente sonhava com aqueles donuts cheios de açúcar?

– Mais uma decepção, eles não são tão bons quanto a gente pensava. – completou Arthur.

– Ah não! Chega. Mais uma decepção eu não agüento. – ela sorria, de um jeito sincero, como nos velhos tempos.

De repente, parecendo um aviso do destino e quebrando momentaneamente essa áurea de magia, o telefone de Arthur toca.

Nitidamente decepcionado, ele pede licença, levanta da mesa e atende a ligação. Enquanto ele está de costas falando ao celular, Ana tem um turbilhão na sua mente. O que ela estava fazendo? Porque ela estava tão animada? Porque o coração dela pulsava tão rápido? No fundo, ela sabia. Querendo ou não, Arthur ainda despertava algo nela. Porém, hoje, anos depois do primeiro beijo, seria Arthur o homem ideal para ela, ou essa sensação era um misto de saudosismo, nostalgia e distorção da realidade?

Os olhos de Ana vagavam enquanto sua cabeça maquinava mil coisas para dizer, mil desculpas para dar. Seu cérebro ordenava: vá para casa, vá ao trabalho, você não tem maturidade suficiente para ser só amiga dele. Enquanto isso, seu coração pulsava mais e mais forte. Tudo isso num intervalo de menos de 3 minutos. Antes mesmo que ela se desse conta, Arthur já tinha desligado a ligação e estava falando com ela.
– Ana, sinto muito, mas tenho que ir! – ele disse. Enquanto acenava para o garçom, pedindo a conta.

Num misto de alívio e frustração, Ana respondeu:

– Ah, eu também preciso ir. Acredite ou não, o trabalho me espera. – disse, em meio a um suspiro.

– Sempre ele, não é? No meu caso também. Meu pai acabou de marcar uma reunião com cliente pra daqui a 2 horas e eu ainda não terminei um dos relatórios. Eu adoraria conversar mais com você, marcamos outra hora? – ele disse de um jeito tão convincente, que ela respondeu em automático:

– Claro! Só me falar. – “Oi? É isso mesmo Ana? Você está realmente marcando mais um encontro com ele?” Seu cérebro gritava dentro da sua cabeça. – Shiu! – respondeu mais alto do que gostaria.
– Hein? – Arthur perguntou.

– Nada, nada. – Ela tentou disfarçar, mas sem muito sucesso. Ela havia falado alto o suficiente para parecer uma doida que se dá ordens em voz alta.

Luís chegou com a conta e a colocou em cima da mesa. Ana e Arthur tentaram pegá-la ao mesmo tempo. E sim, aquela faísca brega dos filmes de romance era real! Ana sentiu imediatamente enquanto sua mão esbarrou na dele.

– Ops! – ela se afastou, com relutância, mas manteve os olhos fixos nele.

– Deixa essa comigo, vai? – ele disse, levando a mão até a conta novamente.

– Não é justo! Você só tomou um café!

– Dois! – corrigiu ele – Você paga o próximo! – Definitivamente ele sabia como criar situações…

– Tá bem, tá bem. – ela respondeu, fingindo estar contrariada. – Quero ver se você vai me deixar pagar mesmo!

– Claro que vou. E vou te dar o maior prejuízo! – ele gargalhou, como nos velhos tempos, é claro! Só porque ela amava muito aquela risada gostosa dele.

 – Que abuso! Não dou conta de você não…

– Será que não? – sorriu com malícia.

– Arthur! Você entendeu muito bem! – ela tentou corrigir.

– Claro que entendi, só queria ver a sua cara de envergonhada mesmo.

– 10 anos depois e eu ainda acredito em você. Patético, né? – suas bochechas coraram.

– Não diria patético, só acho que você espera o melhor das pessoas…

– E você é a pior pessoa pra ganhar esse tipo de confiança né? Abusado! – ela disse, entre sorrisos. Meu Deus, ela era realmente patética. Parecia uma adolescente outra vez.

– Bom, então vamos? Detesto ser o chato, mas preciso mesmo ir trabalhar. – Ele fez sinal para Luís vir buscar a comanda.

– Claro, vamos sim, eu também realmente preciso trabalhar. E terminar a faxina que eu comecei…

– Faxina? Quem te viu, quem te vê, hein?

– E por acaso você sabe lavar um copo, Arthur? – alfinetou.

– Claro que eu sei! Isso e muito mais. Lavo até banheiros, passo roupa e faço vários tipos de comida. Por essa você não esperava, não é mesmo?

– É, me pegou de surpresa. Quando foi que você mudou tanto? – questionou surpresa.

– Nossa, do jeito que você fala até parece que eu era um completo inútil. Eu só não tinha despertado esse meu lado doméstico, digamos assim. – ele sorriu.

– Muito bem então, vejo que fui vencida nessa. Confesso que não sou muito fã dos serviços domésticos…

– Também não sou fã, aliás, quem é? Mas a gente aprende a se virar. O intercâmbio me ensinou algumas coisas, entre elas a dar valor ao conforto da minha casa. – disse, com olhos sonhadores.

– Acho que esse intercâmbio realmente te fez muito bem. Sorriu e completou em pensamento: – pena que te afastou de mim.

Conta paga, não havia mais desculpas para estar ali, mas era nítido, nenhum dos dois queria ir embora.

– Quer uma carona, Ana?

– Não, não precisa. É muito perto, vou a pé. – disse, tentando parecer convicta.

– Tem certeza? – ele tinha uma margem de esperança no olhar.

– Tenho – completou num sorriso – em 10 minutos estou em casa.

– Certo, não vou insistir, ou você vai achar que estou com segundas intenções… – ele sorriu.

– Não, já passamos dessa fase, não é mesmo? Amigos! – Ela exclamou mais alto do que gostaria, como se quisesse provar para si mesma que era apenas isso.

– Sim, amigos. – ele completou, num tom de voz desanimado.

– Então até mais! – ela tentou encerrar.

– Eu vou cobrar o próximo encontro, ok? – ele disse.

– Está combinado! – ela confirmou sorrindo.

A despedida foi um breve abraço, mas no momento em que Ana se aproximou de Arthur suavemente e quando sentiu o cheiro dele tão próximo, estremeceu. O perfume dele não mudara, mesmo em tanto tempo. Era só um cheiro, mas despertava uma gostosa sensação familiar. Um abraço, menos de 5 segundos. Tempo suficiente para fazer um coração disparar e quebrar rapidamente, uma por uma, todas aquelas falsas certezas que ela pensava que tinha.

(CONTINUA)

As dores e as delícias do primeiro encontro – Parte 20

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Já passava de onze da noite e Ana estava elétrica. Ela tinha tomado um banho demorado e zapeado a TV por um tempo, mas nada tinha prendido a sua atenção. O vasinho com a orquídea lilás foi colocado numa mesinha próxima a entrada de seu quarto e agora, deitada na cama, Ana o observava. Seu objetivo principal era se concentrar em cada pétala da flor para tentar não pensar no que estava por trás disso. Péssima estratégia, claro. Minutos depois, seu cérebro já estava martelando num intenso debate mental.

De um lado, a voz da inocência:

– Foi só uma orquídea. É só um gesto afetuoso de um velho amigo e isso não quer dizer nada…

De outro, a impaciente voz da sinceridade:

– Claro! É super normal sair distribuindo presentinhos pra velhos amigos. Flor então, orquídeas… Acontece todo dia! Só que não! ACORDA MULHER!

Ana suspirou e pegou o celular que estava ao lado dela. Olhou as notificações no visor: 1 chamada não atendida, 1 mensagem não lida. Ambas de Guilherme.

“Oi Ana, tô mandando a mensagem só para avisar que cheguei em casa. Te liguei por engano no caminho, por que o celular estava desbloqueado no bolso da calça. Já vou deitar, to cansado. Beijo e boa noite.”

A mensagem tinha sido recebida 22:20. Ela imediatamente respondeu:

“Ah, claro, sem problemas. Só vi a mensagem agora. Tudo bem então, boa noite! Beijos!”

Jogou o celular no canto da cama e se afundou no edredom. Não adiantava ficar imaginando mil coisas, a única maneira de entender Arthur era perguntando diretamente para ele o que queria saber. O impasse é que Ana não queria perder a amizade dele, mas também não queria magoar Guilherme…

No alto do guarda-roupa, sua caixa de cartinhas da adolescência acumulava poeira. Era lá que Ana guardava todos os bilhetinhos trocados com as amigas e também os postais recebidos de Arthur. Se ela pegasse para reler esses postais hoje, ia perceber que sempre gostou de Arthur de um jeito diferente. E também ia notar que ele era afetuoso demais com ela… Mas era tarde e Ana já tinha embarcado num sono inquieto que duraria até a manhã seguinte.

As horas voaram e logo o despertador já estava apitando o som de sempre. Mesmo com o sono agitado, Ana não teve dificuldade em acordar.  Ela queria ocupar a cabeça logo com outras coisas e parar de pensar em orquídea e Arthur. Como não tinha nenhuma reunião agendada no trabalho, aquele seria mais um dia rotineiro revisando textos em frente ao computador.

Enquanto tomava seu suco de laranja e assistia o noticiário da manhã, seu celular tocou. Era Helena! Ela nunca ligava tão cedo. Preocupada, Ana atendeu depressa:

– Oi Helena, bom dia, aconteceu alguma coisa? – perguntou ansiosa.

– Querida, bom dia! Eu acordei você? Se sim, me desculpe… Acabei de receber um telefonema da portaria do prédio… Você não vai acreditar! Um cano estourou bem em frente ao prédio, inundou boa parte da portaria. Segundo o porteiro, tá uma bagunça enorme!

– Eu já estava acordada! Mas como assim? – Ana respondeu assustada – Isso aconteceu agora?

– Logo cedo, às 7h. Durante a troca de turnos na portaria… Acontece que com essa situação, tá impossível entrar no prédio. Além disso, eles cortaram a água até solucionar o problema. Como não tínhamos nada agendado pra hoje, você não precisa ir até lá. Vou te mandar um arquivo por e-mail e você confere de casa, combinado?

– Tudo bem então, deixa comigo! Obrigada pelo aviso, Helena!

– Por nada, até amanhã, se tudo estiver regularizado no prédio – Helena deu uma risadinha.

– Vai estar – Ana retribuiu o riso – até mais! – e desligou.

Como não precisava mais sair de casa, Ana nem fez questão de tirar o pijama. Tem roupa mais confortável que pijama pra trabalhar em casa? Ela terminou de tomar seu suco ainda na bancada da cozinha e depois ligou o computador para esperar a chegada do e-mail.

Enquanto o computador iniciava, Ana sentou no sofá da sala e enviou uma mensagem de bom dia para Guilherme. Quando pousou o celular no sofá, olhou ao redor. Ela tinha ficado quase 1 mês de férias, mas tinha adiado a faxina pesada em todas as ocasiões possíveis. Veja bem, ela não era uma porca. O apartamento não estava imundo, mas também não dava pra dizer que estava muito limpo. A rotina de limpeza era varrer os cômodos uma vez na semana (mas às vezes passava um pouco disso) e tirar a poeira dos móveis de 15 em 15 dias (sendo que esses 15 dias viravam facilmente um mês).

Estava decidido, aquele não seria um dia tranqüilo de home office. Seria um dia de faxina e trabalho duro! Ou quase isso…

Ana resolveu começar pela cozinha. Abriu a geladeira e foi verificar o conteúdo dos potes.

– Isso ainda parece bom… – disse, enquanto encarava o pote de arroz integral.  – mas isso definitivamente não está nada bom. – completou, jogando fora a pizza da semana anterior.

Depois de repetir o procedimento com uns 10 potinhos de todos os tamanhos, não sobrou muito mais do que água, sucos de caixinha, frutas secas e alguns potinhos do congelador. – Definitivamente eu preciso ir ao mercado. – disse a si mesma.

O relógio marcava 9:50 e estava terminada a limpeza da geladeira. Ela arrumou todos os potinhos embaixo da pia e guardou os copos sem uso no armário. Varreu o chão, passou pano e migrou para a sala.

Antes que sua falta de atitude ficasse parecendo descaso, pegou o celular e digitou rapidamente uma mensagem para Arthur:

“Bom dia! Recebi a orquídea ontem à noite. Confesso que fiquei impressionada e gostei do presente, mas você realmente não precisava ter feito isso! Mas obrigada pela lembrança, eu realmente gosto muito de orquídeas.

Ana”

– Pronto! Agora é só torcer pra ele não responder tão cedo – pensou.

Na sala ela recolheu os livros lidos durante o mês anterior, organizou as contas a pagar, juntou os boletos pagos na caixinha e reuniu o restante dos papeis num canto da mesa. Pegou o espanador de pó e limpou cada prateleira da estante, com cuidado para não quebrar os bibelôs da mãe.  Essa é a parte ruim de morar sozinha no apartamento dos pais. Você tem a comodidade de ter a casa mobiliada toda para você, mas não pode simplesmente se desfazer daquilo que considera inútil sem consultar sua mãe.  Algum tempo depois, ela já tinha terminado a faxina da sala e seguiu para o quarto.  Enquanto isso, o e-mail de Helena tinha chegado, mas Ana já estava bem longe do computador para perceber.

O quarto não era tão grande, mas tinha uma bagunça considerável espalhada pelos cantos. Ana dobrou as roupas jogadas na cadeira, separou o que era pra lavar e esticou o lençol da cama. Arrumou a mesinha de cabeceira e antes que pudesse perceber, já estava olhando as notificações do facebook, rolando o feed do instagram… Quando finalmente ela ia retomar seu foco para a faxina, Arthur já tinha respondido.

“Oi! Imagina Ana, eu fico feliz por ter acertado na escolha! Quando você estiver disponível, vamos marcar o nosso café! É só me avisar, ok?

Beijos”

– Não vou responder agora – pensou. – Ou vai ficar parecendo que eu estava grudada no celular esperando pela resposta dele, não é? E também, eu nem sei o que dizer. Resolvo isso depois. – Isso! Vamos adiar mais uma vez… – a voz da sinceridade voltava a martelar no interior de sua cabeça. – Sim, vamos adiar! – respondeu em voz alta, para calar seu pensamento de uma vez por todas.

Era chegado o momento de encarar o guarda-roupa. Ana jogou algumas peças lá dentro e fechou a porta antes que elas pudessem cair de volta em cima dela. Não era a melhor solução e ela sabia disso. Mas o guarda-roupa exigia um dia de dedicação exclusiva, e esse dia não era hoje!

Há quanto tempo ela não limpava o alto do guarda-roupa? 6 meses? Era uma estimativa razoável e otimista. Ana resolveu encarar a realidade sombria de poeira e pegou um pano velho para tirar o excesso de sujeira antes de tudo. Arrastou a velha cadeira que ficava no canto do quarto e subiu.

O panorama não era agradável. Teias de aranha, muita poeira e algumas revistas velhas.  No canto direito, sua antiga caixa de lembranças.

– Como pude me esquecer de você desse jeito? – ela se dirigiu à caixinha suja e empoeirada.  É claro que a limpeza ficou pra depois. Afinal, quem resiste em olhar as coisas perdidas que encontra enquanto faz faxina?

Desceu da cadeira com cuidado e pousou a caixa suavemente no chão do quarto. Sentou em frente e limpou com cuidado o exterior da caixinha. Quando abriu, primeiro viu os bilhetinhos do ensino fundamental unidos por clipes coloridos.

Num canto, envelopes de todas as cores que ela usava para mandar cartas e uma agenda velha, possivelmente do ensino médio. E ao lado de tudo isso, todos os postais que ela recebeu de Arthur, unidos por uma fita vermelha.  Pegou um deles e leu o verso:

“Ana,

Estou aproveitando o feriado e vim pra Nova York, como você pode ver nesse postal da Estátua da Liberdade (óbvio).Mas você não vai acreditar onde eu fui ontem: Broadway! Aqui é surreal, Ana! Você deveria ter vindo comigo.

Saudades!

Arthur”

Ainda com um sorriso estampado no rosto, leu o segundo da fila.

“Ana,

Estou em Las Vegas! Já gastei um monte de grana no cassino, mas antes parei para comprar o seu postal, como sempre. Lembrei de você hoje, sabe por quê? Passei em frente a Chapel of the Flowers e tava rolando um casamento lá. Lembra que a gente brincava que ia se casar em Vegas?

Beijo,

Arthur”

E o conteúdo desses não diferia muito dos demais. Arthur, de um jeito ou outro, sempre deixava bem claro que Ana era uma constante em seus pensamentos.

– Como eu não percebi isso antes? – ela se perguntou, enquanto juntava o restante dos postais para guardar de volta na caixa. Era um misto de sensações. Ao mesmo tempo em que ela estava feliz de ver como o amigo sempre gostou dela, estava triste porque o momento não era nada oportuno.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo celular tocando. Era Guilherme.

– Oi Ana!

– Oi! – respondeu, no susto.

– Você veio trabalhar hoje? – questionou. – Passei em frente ao prédio da editora e tá uma confusão danada!

– Não fui justamente por isso! Parece que estourou um cano ai em frente… Ai a Helena me dispensou! – completou.

– Ah, sortuda! Mal voltou pro trabalho e já ganhou uma folguinha… – ele disse brincando.

– Quem dera, tenho trabalho pra fazer em casa! E aproveitei também para fazer uma faxina.

– Vixe, então talvez fosse melhor ter ido trabalhar mesmo, não é? – ele riu.

– Sim, sem dúvidas! – riu de volta.  Ele a compreendia nos detalhes, mesmo com o pouco tempo de convivência.

– Então, tô te ligando porque vou precisar cancelar nosso cinema dessa semana…

– Ah é? – respondeu desanimada.  – Por quê?

– Vou ter que viajar pra dar curso na outra sede da empresa. Vou hoje à noite e só volto no sábado! Mas se você animar, podemos ir no domingo. Vamos?

– Pode ser… – disse, sem conseguir disfarçar o tiquinho de frustração. – Mas a gente vai se falando nesses dias, né?

– Claro! Só estou avisando assim em cima da hora porque fui realmente chamado em cima da hora. Me desculpe, viu? – ele parecia bastante sincero.

– Imagina, são coisas de trabalho, eu entendo!

– Já vou indo, preciso atender um cliente agora. Um beijo!

– Tá bom, bei… – antes que ela pudesse completar a frase, ele já tinha desligado o telefone.

Ana finalmente resolveu voltar sua atenção para o computador e o e-mail recebido, mas o trabalho não durou muito tempo, pois sua concentração foi interrompida por um estrondoso ronco vindo diretamente de seu estômago.

O relógio marcava 14h. Não tinha nada de bom na geladeira e seja lá o que tivesse no armário, levaria tempo demais para ficar pronto. Ana juntou os pertences na bolsa e saiu para almoçar no restaurante que ficava na praça do bairro.

Quinze minutos de caminhada depois, ela já estava escolhendo um lugar para se sentar. O pequeno restaurante tinha um ar rústico e servia comida do tipo caseira. No cardápio, Ana escolheu o prato do dia: tilápia grelhada, arroz à grega e legumes com molho de ervas. Enquanto esperava o pedido, ficou olhando dois garotinhos que brincavam com um carrinho no parquinho da praça. Ana ficou ali, distraída observando os meninos. Até que sentiu uma mão em seu ombro, seguida de uma voz bastante familiar:

– Ana?

Sim! O mundo realmente era um ovo de codorna e aquele era o Arthur. Companhia que Ana definitivamente não estava esperando!

(CONTINUA)

As dores e as delícias do primeiro encontro – Parte 19

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Nesse episódio vamos entender as coisas pelo ponto de vista do Arthur:

Estava concentrado no que a Helena estava dizendo, até que o barulho do elevador me distraiu. Quando olhei, uma garota tinha derrubado alguns panfletos no chão e rapidamente tinha se abaixado para recolhê-los. E eu não podia acreditar que aquela era a Ana. Minha querida e doce amiga Ana.

Conversamos amenidades. Ao mesmo tempo em que ela mudou muito, ela não mudou nada. O seu sorriso ainda causa simpáticas covinhas na sua bochecha. O seu cabelo ainda tem ondas suaves nas pontas e tem o mesmo tom de castanho que eu me lembrava. Só que ela ainda está mais linda, se é que isso é possível.

Confesso que durante a nossa reunião de planejamento não pude deixar de reparar no jeito dela. Ela continua tímida, mas consegue disfarçar muito bem com um discurso bem preparado e domínio sobre o que está falando. E estava linda, realmente linda.

Quando pedi seu número, a primeira desculpa que me veio à cabeça foi convidá-la para um café. Alguém ainda convida para um café? Não sei, mas arrisquei. Ela gentilmente me passou seu número e sorriu. E eu tive que virar as costas para ela e  ir embora.

A caminho do estacionamento passei por uma floricultura. Olhei a vitrine e logo vi uma pequena orquídea lilás. Apesar de pequena e discreta, ela chamou minha atenção. Acho que no fundo eu me lembrei que a Ana sempre comentava como orquídeas eram flores muito mais interessantes do que rosas. Ou será que eu estava imaginando coisas? De qualquer maneira, o que eu estava pensando afinal?

A Ana tinha sido uma grande amiga da minha adolescência. Na verdade, ela tinha sido minha melhor amiga. A única que eu falava sobre qualquer assunto, a qualquer momento.
O dia em que nos beijamos foi muito estranho. O beijo não foi ruim, pelo contrário, mas me pegou de surpresa. Sempre fomos amigos, só isso. Pelo menos eu nunca desconfiei de qualquer interesse da parte dela.

Quando fui para o exterior, Ana foi na minha festa de despedida, mas nós não tivemos uma despedida decente, como nossa amizade merecia. Eu estava no começo da faculdade, cheio de novidades e ela ainda estava no ensino médio. Eu contava para ela sobre como a faculdade era diferente do que eu pensava, enquanto ela ainda não fazia ideia de que curso iria prestar no vestibular.

Eu nunca tive dúvidas, sempre pensei em seguir a carreira do papai. Sendo sincero, eu nem cheguei a pensar em outras opções, tinha facilidade com as exatas e como meu pai já tinha uma empresa, esse foi meu caminho natural.

Já Ana queria ser bióloga, depois veterinária, depois designer, depois nem lembro mais. Mas acho que ela fez Jornalismo ou Letras, porque sempre gostou muito de ler e escrever.

Assim que cheguei aos Estados Unidos eu pirei. Sempre quis viajar o mundo e a Ana também queria muito! A gente tinha planos de fazer alguns mochilões por ai. Acabou que fiquei 2 anos morando em Chicago estudando na  Universidade de Illinois.

O combinado era sempre mandar um postal pra ela a cada cidade que eu visitasse. E a gente tinha prometido trocar e-mails também. Eu enviei um postal logo que cheguei e também um e-mail. Ela prontamente me respondeu. Com o tempo, fui me distraindo com a minha nova rotina, os e-mails ficaram mais espaçados até que cessaram por um tempo. Ana ainda insistiu, sempre que podia me perguntava como eu estava indo, onde eu tinha passado os finais de semana, se eu tinha visitado outros lugares. Mas eu fui um idiota e deixei de responder alguns dos seus e-mails. Eu pensava que responderia no dia seguinte, mas o dia seguinte nunca chegava.

Quando voltei ao Brasil, prontamente enviei um e-mail para Ana, mas foi ai que ela não me respondeu. Doeu. Pensei que tudo voltaria a ser como antes, num passe de mágica. A vida seguiu. Conclui a faculdade e logo engatei uma pós. O tempo estava voando! E nós perdemos a proximidade.

Fui de novo para o exterior e voltei. Para a minha surpresa, na minha primeira reunião de volta ao trabalho quem eu vejo? Ana. Inacreditável como esse mundo dá voltas. Parece coisa de filme, ou destino, sei lá.

E cá estou eu, pensando em quando vou poder convidá-la para o tal café. Pego o telefone e envio uma mensagem para ela.

 

“Oi Ana, aqui é o Tu. Tô mandando a mensagem pra você salvar o meu número. Estou sorrindo até agora, acredita? Tava aqui me lembrando da nossa adolescência. Nunca pensei que te encontraria novamente de um jeito tão inesperado! Sinto muita falta das nossas conversas, desculpe por ter me distanciado de você durante esses anos… Me arrependo de verdade. Mas espero poder retomar o tempo perdido! Um beijo!”

 

Depois de enviar, reli a mensagem. Puts. Era quase uma declaração de amor. Mas depois que a gente aperta o botão de enviar, não tem como lamentar, não é?

Ela não respondeu de imediato, mas eu fiquei checando o celular de 5 em 5 minutos. Se ela não tivesse me dado um cartão com seu número, eu sinceramente teria pensado que ela tinha inventado uma sequência de números qualquer.

 

Fim do expediente, papai não estava lá. Queria contar as novidades pra ele, tenho certeza que ele se lembra da Ana e dos pais dela. Peguei o carro e fui embora. Num semáforo no caminho de casa recebi a mensagem. Era a resposta que eu tanto esperava.

 

“Oi Arthur, desculpe pela demora em responder. Seu número está salvo. Também sinto falta da nossa amizade. Você foi o meu primeiro amigo… Sim, vamos marcar o nosso café pra colocar o papo em dia!

Abraço, Ana.”

Tudo bem, desculpas aceitas. Que moral eu tenho para cobrar algo dela se estou 6 anos atrasado? Por coincidência, ou talvez seja mesmo destino, a floricultura era na outra rua. Será que eles ainda estavam funcionando? Mas e o endereço dela? Fiz um esforço mental. O bairro dela não era muito distante dali, acho que ela deva continuar morando no mesmo lugar de sempre. Valia a pena arriscar. Qualquer coisa eu poderia levar a orquídea lá pra casa mesmo.

Por sorte a orquídea ainda estava lá. Pedi para embrulhar para presente. Me perguntaram se era uma ocasião especial. Disse que sim, bem especial, com um sorriso besta no rosto. A moça sorriu de volta e me entregou um belo embrulho azul, uma caixa própria para plantas. E eu nem sabia que isso existia. Comprei um cartão ali mesmo e escrevi:

“ Você ainda gosta de orquídeas? Vi essa no caminho indo para casa e lembrei de você. Sim, eu me lembro do seu endereço! Só confirmei com o porteiro antes de deixar o pacote. Espero que goste.

Arthur.”

Eu realmente estava arriscando muito! Será que foi um exagero? Tarde demais para se arrepender, eu já estava em frente a portaria dela. Perguntei ao porteiro se a Ana do 402 ainda morava lá. Ele disse que sim e perguntou se eu queria que chamasse pelo interfone. Disse que não precisava. Isso sim seria bastante invasivo. Me senti um stalker, mas entreguei a caixa e agradeci.

Fui para casa pensando no que eu tinha acabado de fazer. Nunca fui muito bom com as palavras, eu achava mais simples demonstrar as coisas por meio de gestos. Procurei ser discreto, falei da nossa amizade na mensagem não é? Não, não tinha desculpas. Eu tinha sido bem óbvio. Só esqueci do pequeno detalhe de não ter perguntado se ela está solteira. Bom, mal não ia fazer. É só uma florzinha, mesmo com namorado continua sendo uma florzinha.

Se eu tinha sido extremamente precipitado, só o tempo ia me dizer. A única coisa que eu podia fazer era esperar por uma resposta e torcer para que orquídeas ainda causassem boas reações nela.

(CONTINUA)