As dores e as delícias do primeiro encontro – Parte 19

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Nesse episódio vamos entender as coisas pelo ponto de vista do Arthur:

Estava concentrado no que a Helena estava dizendo, até que o barulho do elevador me distraiu. Quando olhei, uma garota tinha derrubado alguns panfletos no chão e rapidamente tinha se abaixado para recolhê-los. E eu não podia acreditar que aquela era a Ana. Minha querida e doce amiga Ana.

Conversamos amenidades. Ao mesmo tempo em que ela mudou muito, ela não mudou nada. O seu sorriso ainda causa simpáticas covinhas na sua bochecha. O seu cabelo ainda tem ondas suaves nas pontas e tem o mesmo tom de castanho que eu me lembrava. Só que ela ainda está mais linda, se é que isso é possível.

Confesso que durante a nossa reunião de planejamento não pude deixar de reparar no jeito dela. Ela continua tímida, mas consegue disfarçar muito bem com um discurso bem preparado e domínio sobre o que está falando. E estava linda, realmente linda.

Quando pedi seu número, a primeira desculpa que me veio à cabeça foi convidá-la para um café. Alguém ainda convida para um café? Não sei, mas arrisquei. Ela gentilmente me passou seu número e sorriu. E eu tive que virar as costas para ela e  ir embora.

A caminho do estacionamento passei por uma floricultura. Olhei a vitrine e logo vi uma pequena orquídea lilás. Apesar de pequena e discreta, ela chamou minha atenção. Acho que no fundo eu me lembrei que a Ana sempre comentava como orquídeas eram flores muito mais interessantes do que rosas. Ou será que eu estava imaginando coisas? De qualquer maneira, o que eu estava pensando afinal?

A Ana tinha sido uma grande amiga da minha adolescência. Na verdade, ela tinha sido minha melhor amiga. A única que eu falava sobre qualquer assunto, a qualquer momento.
O dia em que nos beijamos foi muito estranho. O beijo não foi ruim, pelo contrário, mas me pegou de surpresa. Sempre fomos amigos, só isso. Pelo menos eu nunca desconfiei de qualquer interesse da parte dela.

Quando fui para o exterior, Ana foi na minha festa de despedida, mas nós não tivemos uma despedida decente, como nossa amizade merecia. Eu estava no começo da faculdade, cheio de novidades e ela ainda estava no ensino médio. Eu contava para ela sobre como a faculdade era diferente do que eu pensava, enquanto ela ainda não fazia ideia de que curso iria prestar no vestibular.

Eu nunca tive dúvidas, sempre pensei em seguir a carreira do papai. Sendo sincero, eu nem cheguei a pensar em outras opções, tinha facilidade com as exatas e como meu pai já tinha uma empresa, esse foi meu caminho natural.

Já Ana queria ser bióloga, depois veterinária, depois designer, depois nem lembro mais. Mas acho que ela fez Jornalismo ou Letras, porque sempre gostou muito de ler e escrever.

Assim que cheguei aos Estados Unidos eu pirei. Sempre quis viajar o mundo e a Ana também queria muito! A gente tinha planos de fazer alguns mochilões por ai. Acabou que fiquei 2 anos morando em Chicago estudando na  Universidade de Illinois.

O combinado era sempre mandar um postal pra ela a cada cidade que eu visitasse. E a gente tinha prometido trocar e-mails também. Eu enviei um postal logo que cheguei e também um e-mail. Ela prontamente me respondeu. Com o tempo, fui me distraindo com a minha nova rotina, os e-mails ficaram mais espaçados até que cessaram por um tempo. Ana ainda insistiu, sempre que podia me perguntava como eu estava indo, onde eu tinha passado os finais de semana, se eu tinha visitado outros lugares. Mas eu fui um idiota e deixei de responder alguns dos seus e-mails. Eu pensava que responderia no dia seguinte, mas o dia seguinte nunca chegava.

Quando voltei ao Brasil, prontamente enviei um e-mail para Ana, mas foi ai que ela não me respondeu. Doeu. Pensei que tudo voltaria a ser como antes, num passe de mágica. A vida seguiu. Conclui a faculdade e logo engatei uma pós. O tempo estava voando! E nós perdemos a proximidade.

Fui de novo para o exterior e voltei. Para a minha surpresa, na minha primeira reunião de volta ao trabalho quem eu vejo? Ana. Inacreditável como esse mundo dá voltas. Parece coisa de filme, ou destino, sei lá.

E cá estou eu, pensando em quando vou poder convidá-la para o tal café. Pego o telefone e envio uma mensagem para ela.

 

“Oi Ana, aqui é o Tu. Tô mandando a mensagem pra você salvar o meu número. Estou sorrindo até agora, acredita? Tava aqui me lembrando da nossa adolescência. Nunca pensei que te encontraria novamente de um jeito tão inesperado! Sinto muita falta das nossas conversas, desculpe por ter me distanciado de você durante esses anos… Me arrependo de verdade. Mas espero poder retomar o tempo perdido! Um beijo!”

 

Depois de enviar, reli a mensagem. Puts. Era quase uma declaração de amor. Mas depois que a gente aperta o botão de enviar, não tem como lamentar, não é?

Ela não respondeu de imediato, mas eu fiquei checando o celular de 5 em 5 minutos. Se ela não tivesse me dado um cartão com seu número, eu sinceramente teria pensado que ela tinha inventado uma sequência de números qualquer.

 

Fim do expediente, papai não estava lá. Queria contar as novidades pra ele, tenho certeza que ele se lembra da Ana e dos pais dela. Peguei o carro e fui embora. Num semáforo no caminho de casa recebi a mensagem. Era a resposta que eu tanto esperava.

 

“Oi Arthur, desculpe pela demora em responder. Seu número está salvo. Também sinto falta da nossa amizade. Você foi o meu primeiro amigo… Sim, vamos marcar o nosso café pra colocar o papo em dia!

Abraço, Ana.”

Tudo bem, desculpas aceitas. Que moral eu tenho para cobrar algo dela se estou 6 anos atrasado? Por coincidência, ou talvez seja mesmo destino, a floricultura era na outra rua. Será que eles ainda estavam funcionando? Mas e o endereço dela? Fiz um esforço mental. O bairro dela não era muito distante dali, acho que ela deva continuar morando no mesmo lugar de sempre. Valia a pena arriscar. Qualquer coisa eu poderia levar a orquídea lá pra casa mesmo.

Por sorte a orquídea ainda estava lá. Pedi para embrulhar para presente. Me perguntaram se era uma ocasião especial. Disse que sim, bem especial, com um sorriso besta no rosto. A moça sorriu de volta e me entregou um belo embrulho azul, uma caixa própria para plantas. E eu nem sabia que isso existia. Comprei um cartão ali mesmo e escrevi:

“ Você ainda gosta de orquídeas? Vi essa no caminho indo para casa e lembrei de você. Sim, eu me lembro do seu endereço! Só confirmei com o porteiro antes de deixar o pacote. Espero que goste.

Arthur.”

Eu realmente estava arriscando muito! Será que foi um exagero? Tarde demais para se arrepender, eu já estava em frente a portaria dela. Perguntei ao porteiro se a Ana do 402 ainda morava lá. Ele disse que sim e perguntou se eu queria que chamasse pelo interfone. Disse que não precisava. Isso sim seria bastante invasivo. Me senti um stalker, mas entreguei a caixa e agradeci.

Fui para casa pensando no que eu tinha acabado de fazer. Nunca fui muito bom com as palavras, eu achava mais simples demonstrar as coisas por meio de gestos. Procurei ser discreto, falei da nossa amizade na mensagem não é? Não, não tinha desculpas. Eu tinha sido bem óbvio. Só esqueci do pequeno detalhe de não ter perguntado se ela está solteira. Bom, mal não ia fazer. É só uma florzinha, mesmo com namorado continua sendo uma florzinha.

Se eu tinha sido extremamente precipitado, só o tempo ia me dizer. A única coisa que eu podia fazer era esperar por uma resposta e torcer para que orquídeas ainda causassem boas reações nela.

(CONTINUA)

 

 

 

 

 

As dores e as delícias do primeiro encontro – Parte 18

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Ana se ocupou com seus afazeres até o fim do expediente. Saiu às 18h, seu horário normal. Gui havia mandado uma mensagem, confirmando que iria trabalhar até mais tarde hoje, por volta das 20h. Assim, Ana resolveu passar numa livraria no caminho de casa. E assim pensaria em como responder a mensagem de Arthur.

Chegando lá, Ana conferiu os lançamentos… Sua estante de livros era o seu xodó e ela sempre estava preenchendo-a com novidades. O tempo para leitura não era tão grande como antigamente, mas ela conseguia ler 2 ou 3 livros por mês com facilidade. Ler e assistir seriados eram seus passatempos prediletos. Enquanto lia, Ana se desligava do mundo e embarcava na história dos personagens… Era ótimo poder viver mundos paralelos ao dela.

Como era cliente assídua, as vendedoras já a conheciam intimamente. Ana adorava o ambiente daquela livraria. Não era uma megastore, pelo contrário. Tinha um clima intimista e remetia ao século passado. Em anexo, um pequeno café que servia um cappuccino espetacular. Era impossível passar por lá sem saborear uma xícara.

Ana pegou uma revista e se sentou em um dos banquinhos enquanto aguardava o seu pedido. Um cappuccino clássico e biscoitinhos de aveia. Pegou o celular e releu a mensagem de Arthur. Respirou profundamente e começou a digitar:

“Oi Arthur, desculpe pela demora em responder. Seu número está salvo. Também sinto falta da nossa amizade. Você foi o meu primeiro amigo… Sim, vamos marcar o nosso café pra colocar o papo em dia!

Abraço, Ana.”

Amizade. Amigo. Ana fez questão de dar ênfase nisso! Não queria que Arthur estivesse confundindo as coisas… Ou talvez fosse só coisa da sua cabeça. Mas, o jeito que ele a olhou antes de sair tinha deixado sua cabeça cheia de dúvidas!

Numa questão de segundos seu celular vibrou em resposta:

“Combinado, Aninha! Não vou sumir nunca mais, eu prometo.”

– Hm, certo. É uma grande promessa. – pensou.

E então resolveu enviar uma mensagem para Guilherme.

“Oi! Sei que você está trabalhando agora, mas queria te perguntar se você não quer combinar um cinema pra quarta ou quinta, o que acha?

Beijo!”

Enquanto tomava seu cappuccino, Ana ia pensando no que responder a Arthur. Talvez aquela mensagem não precisasse de resposta, não é? Não assim, imediatamente.

O bom de Guilherme é que ele sempre respondia rápido:

“Oi! Claro que eu animo! Estou com a noite livre em qualquer dia, você escolhe e me avisa, tá bem? Um beijo!”

– Tá bem! Fofo! – pensou. Ele era mesmo uma gracinha. Que filme eles iriam assistir? Ela não fazia ideia do que estava em cartaz… Se bem que qualquer filme estava bom. Com a companhia dele, seria divertido de qualquer forma. Digitou uma mensagem em resposta:

“Você tem alguma preferência de filme? Guerra Civil ainda está em cartaz e eu não assisti. Pode ser?”

Resposta quase que imediata:

“Também não vi ainda e estava querendo assistir! Pra mim está ótimo! Beijo”

“Agora vou realmente trabalhar, hahahaha, te aviso quando chegar em casa!”

Ana pagou a conta no café e foi para casa… A noite estava bonita e o céu cheio de estrelas. Parecia até uma cena de um filme bem romântico, em que o casal fica passeando sob a luz do luar… Só faltava Guilherme estar ao seu lado, de mãos dadas… ai, ai…

Ao chegar no apartamento, resolveu ligar para Lívia… Queria contar todas as novidades para a amiga o quanto antes e ouvir sua opinião sincera sobre tudo!

Depois de alguns minutos de falatório total de Ana, Lívia finalmente respondeu:

– UFA! Isso porque a senhorita fala que sua vida é um tédio hein amiga?

– Nem me fala. Era um tédio e ainda é, em partes. Mas em poucos dias tudo mudou, né? – Ana suspirou.

– Primeiro, tô muito feliz que vocês estejam namorando. O Gui olha pra você de um jeito tão fofo… E você tá tão feliz com ele, é nítido! – Lívia disse num suspiro.

– Ah amiga, obrigada! Eu também to bem feliz… Mesmo com toda essa confusão de André e Marcela as coisas se esclareceram numa boa.

– É, verdade! Só você mesmo pra ter essa sorte… – Lívia riu baixinho.

– Vai rindo mesmo, maldosa! Eu não merecia isso! – Ana completou, num muxoxo.

– Realmente não merecia, mas desculpa amiga, é bem engraçado. Parece coisa de novela. Hahahahaha

– HAHAHAHAHA tá bom, agora já chega… E quanto ao Arthur? Você não tem nada pra me dizer?

– Primeiro, me apresenta!

– Boba!

– Sério, ele parece ser bem gato.

– E o Beto, doida?

– Ué, o Beto tá na dele… E eu não tô morta né?

– Tá bom, agora vamos priorizar… é besteira da minha cabeça? – Ana implorou.

– Então… eu acho que talvez você esteja vendo pelo em ovo. Pode ser que ele só queira um café. Retomar a amizade, essas coisas. Mas ao mesmo tempo acho que pode ser algo meio “Simplesmente Acontece”. Você sendo a Rosie e ele o Alex.

– Ai amiga, não! Não ajudou muito… – Ana parecia frustrada.

– Veja bem… vocês são amigos desde sempre, o destino afasta, depois vocês se unem de novo. Não tem como não ver a semelhança!

– Mas e o Gui, amiga? Eu realmente gosto dele. E ele é ótimo comigo.

– Pois é, o Guilherme tá sobrando na história… Mas agora é sério, é só uma brincadeira! Não podia perder a oportunidade. Acho que você está, como sempre, sofrendo por antecipação…

– Essa é a minha vida, né?

– Ô! E você já sabe bem o quanto isso só te faz mal…

– Sei – disse baixinho.

– Então para!!!! Vive o momento, que por sinal, tá ótimo… E deixa rolar. Às vezes o cara quer só ser seu amigo mesmo, isso acontece também, Ana!

– Sim, até mesmo porque a gente já foi muito amigo, do tipo de contar tudo um pro outro…

– Então, pra mim essa é mais uma das suas paranoias!

– Como sempre, você está coberta de razão! Mas você acha que devo mandar mais alguma mensagem pra ele?

– Acho que não, você já deixou claro o que pretende. E ele deve ter entendido, é inteligente o suficiente pra isso, tem até um MBA – Lívia nunca deixava de soltar uma piadinha pra amenizar o clima .

– hahaha você não existe amiga, é verdade! Vou parar de ficar me martirizando. E curtir o lance com o Gui, que está indo muito bem… A gente vai ao cinema na quarta, tô tão feliz!

– Feliz e apaixonada, né? Só não esquece das amigas! Hãm! Vamos fazer um encontro duplo… Quem sabe assim o Beto se sente levemente intimidado a ter um relacionamento comigo… Ele é tão lerdo, amiga.

– Livinha!!!!

– É brincadeira! Mas a gente podia marcar alguma coisa mesmo, o Beto gostou bastante do Gui. Não custa nada dar uma forcinha para o destino, né?

– Com certeza, e de dar uma forcinha pro destino a gente entende! – Ana riu.

– Combinado! Um beijo e me mantenha informada.

– Beijo! Mantenho sim! – e desligou.

Enquanto trocava os canais desinteressadamente, o interfone tocou. Era o porteiro noturno.

– Oi Ana, tem uma encomenda aqui pra você… Chegou tem um tempo, mas o moço não quis subir.

– Encomenda? Mas eu não comprei nada pela internet… – Ana estava confusa.

– É uma caixinha azul… Tá escrito frágil! Você  pode vir buscar? Não posso subir pra levar ai agora, outro dia levei bronca porque deixei o posto vazio.

– Claro seu Zé, imagina! To indo agora mesmo!

Por sorte, Ana ainda não tinha colocado seu pijama de ursinho. Mas o seu Zé não ia se importar de qualquer forma…  Ana chamou o elevador e logo estava na portaria.

– Tá aqui menina! Desculpe não ter te chamado antes!

– Imagina, eu estava no telefone… Obrigada viu?

– As ordens! – ele sorriu.

Ana estava super curiosa. Não tinha remetente na embalagem, o que descartava as chances de ser uma encomenda perdida. A caixa parecia ter mini furinhos… O que poderia ser?

Chegando em casa, colocou a caixinha sobre a mesa e delicadamente rompeu a fita que lacrava a embalagem.

Um vasinho com uma pequena orquídea e um mini envelope, no mesmo tom de lilás da planta.

“ Você ainda gosta de orquídeas? Vi essa no caminho indo para casa e lembrei de você. Sim, eu me lembro do seu endereço! Só confirmei com o porteiro antes de deixar o pacote. Espero que goste.

Arthur.”

AI-MEU-DEUS.

Ana adorava flores. Orquídeas então… Que gesto lindo! Mas romântico demais, não?

O que fazer? Como agradecer?

Era hoje que Ana não ia pregar os olhos de tanta ansiedade!

 

(CONTINUA)

As dores e as delícias do primeiro encontro – Parte 17

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Ana se abaixou rapidamente para recolher os folhetos, ainda trêmula e com o rosto pinicando de vergonha. E antes que ela pudesse se dar conta, Helena e Arthur estavam parados na sua frente.

– Ana?

– Oi! – disse, levantando num pulo.

– Caramba, é você mesmo! Tem anos que não te vejo! – exclamou Arthur, enquanto estendia os braços pra ela.

Ana ficou sem graça de abraçar Arthur daquele jeito, ainda mais na frente da sua chefe. Mas ela não poderia ignorá-lo, certo?

– Sim, faz tempo mesmo. – enquanto estava com a cara pressionada no peito dele.

Depois que foi liberada dos fortes braços de Arthur, Ana olhou para Helena, com as bochechas ainda coradas, um tanto quanto constrangida.

– Pelo visto, vocês são velhos conhecidos, não é? Vou deixar vocês conversarem um pouquinho já que estamos adiantados. Estarei à espera na sala de reuniões! – Helena olhou pra caixa nas mãos de Ana. – Ah, ótimo, você conseguiu pegar os panfletos… Me dê eles aqui!

Antes que Ana pudesse dizer qualquer coisa, Helena já tinha tomado a caixa de suas mãos e se afastava enquanto dava uma piscadela pra Ana.

– Como você tá? Nunca imaginei que te encontraria por aqui! – disse, animado.

– Ah, eu estou bem… e você? Achei que ia continuar morando no exterior… – Ana falou, num tom meio chocho.

– Estou bem também! Cheguei tem uma semana… Tava estudando em Londres e voltei para ajudar o pai na empresa. Mas me fale de você, Ana! – completou Arthur, naquele sorriso estonteante dele.

Falar o que? Ela pensou. A vida dela não tinha nada de tão interessante assim… Rotina, rotina e mais rotina. Nenhuma visita a Paris no currículo, na verdade, ela nem conhecia a Europa. Não por falta de vontade, é claro. A vida dela não tinha a menor graça se comparada a dele e ela se sentia pequena perto das experiências que Arthur já viveu…

– Ah, você sabe… Tudo na mesma! – sorriu discretamente.

– Ah, Ana! Que desânimo é esse? Você era tão empolgada quando tinha 15 anos, eu me lembro bem. – afirmou, dando uma piscadinha charmosa.

– Não é desanimo não, é que eu não sei o que você quer saber de mim. – ruborizou encolhendo os ombros.

– Ah, deixa disso! Você tem histórias ótimas… Seus pais estão bem? Meu pai sempre fala deles com muito carinho.

– Estão sim! Agora que eles se aposentaram voltaram pra casa do interior, meu pai adora uma calmaria… Mamãe sente mais falta da cidade, mas também gosta da tranqüilidade de lá. Lembra que eles adoravam ir ao sítio do seu pai? – aos poucos, ela ia se soltando com ele…

– Claro que eu lembro, vocês sempre iam lá nas férias. Bons tempos né Ana? Quando a gente não precisava se preocupar com trabalho, com contas a pagar…

– Realmente, era bom mesmo. – suspirou. -Mas e você? Gostou mesmo de morar fora hein?

– Ah, cara! É muito bom… Lembra que eu fiz aquele intercâmbio nos EUA no primeiro ano da faculdade?

Ana calculou mentalmente. Ela se lembrava perfeitamente… Era a última vez que ela tinha se encontrado com ele, na sua festa de despedida. Arthur tinha sido uma paixonite de sua adolescência. Cresceram amigos, trocaram uns beijinhos, nada sério… Arthur era dois, quase três anos mais velho. Mas a amizade tinha permanecido. A distância é que jogou uma pá de cal no relacionamento. Ele mandou alguns postais, Ana mandou umas cartas, depois uns e-mails. Mantiveram o contato por um ou dois anos, mas as circunstâncias acabaram abalando a amizade dos dois. Se antes Ana sabia até o sabor favorito de sorvete do Arthur, hoje ela não sabia nem se ele ainda tomava sorvete… – não com esse corpo, ela deduziu.

– Ana? – chamou Arthur.

– Desculpa, me distrai! Lembro, claro… – Ana balançou a cabeça, voltando à realidade.

– Então, a experiência foi muito boa… Depois que eu voltei, terminei a faculdade e logo em seguida emendei o MBA. Fiz uma parte aqui e cursei um semestre lá fora. Agora tô de volta, mas pretendo voltar a passeio sempre que eu puder. E você? Foi se aventurar na América Latina conforme o planejado? – perguntou, cheio de expectativa.

Ele também se lembrava dos velhos planos, que coisa. Por essa Ana não esperava.

– Que nada, Tu. – o velho apelido carinhoso voltou à tona. – Fiz uma viagem de 10 dias pra Argentina e só, assim que me formei. Presente do papai e da mamãe. Foi ótimo, mas o mochilão mesmo, eu não fiz…

– Quando quiser companhia sabe que pode me chamar, né?

Ana queria dizer que agora ela tinha um namorado. Mas como ela poderia falar isso sem parecer que estava dando uma cortada nele? Não que ele tivesse interessado, talvez ele tenha falado apenas na amizade, mas…

– Ah, obrigada. – sorriu, discretamente. – Então vamos lá? A Helena não para de espiar a gente.

– Sua chefe é bem gente boa! Estávamos conversando sobre um monte de coisa, ela é bem animada, hein? Ela é solteira? Acho que o papai gostaria dela. – e deu um risinho.

– A Helena é separada… Ela é ótima mesmo! Você já chegou dando uma de cupido, hein?

– Tenho achado ele muito sozinho, Ana. Acho que ela seria uma excelente companhia pra ele… Não custa nada dar um empurrãozinho, né? – ele deu de ombros enquanto sorria.

– É verdade… E acho que a Helena também poderia gostar do seu pai. O Rogério é bem bonitão!

– É, o coroa se cuida! – ele deu uma gargalhada.

Assim que entraram pela porta, Ana percebeu que Helena estava perguntando com os olhos de onde é que eles se conheciam. Ana adorava Helena, mas ela era um pouquinho enxerida…

– Helena, você acredita que eu e a Ana somos amigos de infância?

Isso Arthur, conta tudo pra ela! E perai, somos? – Ana pensou.

– Ué Ana, você não me falou que já conhecia o nosso cliente quando te contei da reunião… – Helena sorriu, maliciosa.

– É, eu não falei porque não associei as referências. Não imaginei que o Arthur estava de volta – e nem que o mundo seria tão pequeno. – completou baixinho.

Assim que discutiram o serviço a ser feito, Arthur colocou-se de pé.

– Eu cheguei aqui planejando uma coisa e vocês conseguiram me apresentar uma proposta mil vezes melhor! Tenho certeza que esse manual vai ficar bem acima das expectativas do meu pai e o orçamento também está dentro do planejado. Excelente!

– Que bom, Arthur! Espero que essa seja uma parceria de sucesso. – Helena estendeu as mãos para ele, que retribui num aperto de mão firme.

– Ana, vamos combinar um café qualquer dia desses? Temos muito o que conversar…

– Ah, claro. Depois a gente combina… – disse sem pensar. Afinal, era só um café com um velho amigo, né?

– Me passa o seu número… Eu perdi todos os meus antigos contatos.

Ela estendeu um cartão para ele, de modo cortês – aqui está. – e sorriu discretamente.

– Até mais, Helena! Até breve, Ana. – disse num sorriso convidativo.

Assim que ele saiu pela porta, Helena foi logo dizendo o que estava entalado.

– Que amigo hein? Se eu tivesse uma filha, queria que ela fosse namorada dele! Que homem lindo, educado, simpático… estou encantada! – ela suspirou – Você sabe que te considero como uma filha, né Ana? – ela completou de modo entusiasmado.

– É, to vendo! – Ana sorriu – Realmente, o Arthur é ótimo, mas eu estou namorando, Helena.

– Como assim você não me contou nada?

– É bem recente, é o Guilherme. Lembra dele? Já veio aqui na empresa algumas vezes…

– O Guilherme? Nunca pensei! Vocês esconderam muito bem! Ele é uma graça de menino… faço gosto, Ana! Você fez uma boa escolha. – ela piscou.

– Fiz sim, né? – Ana corou imediatamente. Só de falar o nome dele ela podia sentir seu sangue pulsando mais rápido nas veias.

Enquanto Ana finalizava uma correção de texto no computador, seu celular piscou em cima da mesa.

Deve ser o Gui… – pensou.

Mas não era.

Oi Ana, aqui é o Tu. Tô mandando a mensagem pra você salvar o meu número. Estou sorrindo até agora, acredita? Tava aqui me lembrando da nossa adolescência. Nunca pensei que te encontraria novamente de um jeito tão inesperado! Sinto muita falta das nossas conversas, desculpe por ter me distanciado de você durante esses anos… Me arrependo de verdade. Mas espero poder retomar o tempo perdido! Um beijo!

Com as mãos trêmulas, Ana pousou o celular sobre a mesa. Não ia responder, não agora. Seria ótimo restabelecer contato com Arthur, porém somente na amizade. E Ana não tinha certeza se ele estava com as mesmas intenções.

Ela já havia gostado muito de Arthur, além disso, ele era o seu melhor amigo e a conhecia tão bem… Porém, Guilherme tinha despertado novos sentimentos nela e estava sendo incrível conhecê-lo melhor. Ela finalmente estava se apaixonando de novo, depois de tanto tempo.

Por que é que quando as coisas estão indo tão bem, as memórias do passado resolvem voltar a vida?

(CONTINUA)